WhatsApp ou Telegram Servem Como Veículo de Imprensa?

Um jornalista amigo meu veio com esta proposta. Considera ser possível criar um grupo no Telegram (um genérico do WhatsApp que suporta mais usuários – cinco mil para ser preciso) e formá-lo como um veículo de imprensa, aos moldes de um jornal impresso ou uma rádio, por exemplo. Segundo ele, o problema do WhatsApp é que aceita poucos integrantes (apenas 256).

Discutimos a respeito e coloquei questões que, de certa forma, impedem a coisa. Misturar jornalistas com a missão de reportar e usuários não jornalistas para serem a audiência em um grupo de chat não dá certo. Vamos às questões em tópicos, como prefiro por mania e para ser didático.

  1. Há um problema inicial de correção textual. Os profissionais jornalistas, para manter a credibilidade do projeto e de seus nomes, por certo deveriam escrever nestes chats corretamente, evitando onomatopeias e gírias (a menos que seja um “veículo” jovem ou descolado). E, como veremos a seguir, os chats foram forjados, digamos assim, na informalidade.
  2. Os usuários de chats não serão como os leitores de jornais ou revistas. Eles não apenas “recebem” informações. Eles próprios publicam. Há uma predisposição à participação no uso destas ferramentas. Ou seja, todo mundo é igual e todos tem direito a voz e vez. Portanto, impor regras jornalísticas ali (fazê-los ficar quietos esperando o noticiário) é correr contra a maré imposta pelo modus operandi dos chats. Neste caso também, para poder fazer o jornalismo que costumeiramente os profissionais de imprensa entendem como certo, relegaríamos o usuário a ser apenas passivo, assim como já o é na TV, no rádio, no jornal e muitas vezes na própria internet. Não estamos inovando, mas retrocedendo no item participação.
  3. Ainda quanto a participação de usuário (se num grupo de cinco mil pessoas, muitas vezes desconhecido), poderá existir (o que é comum) o “bem informado”, que vai desviar a apuração ou forçar a checagem de dados muitas vezes durante o dia por conta de suas certezas sobre o que é informado.
  4. Haverá ainda os comentadores de pauta (de tudo), que irão misturar opinião à informação, confundindo outros usuários.
  5. E, pior ainda, haverá os spammers, que a qualquer hora publicarão hoax, correntes de ajuda, memes, piadas. Que bagunça será este “veículo”.
  6. A discussão da pauta também causaria estranhezas. Se a linha editorial sugerisse que as pautas seriam de assunto determinado, quem garante que os usuários não irão querer informações de outro tema? A possibilidade do grupo de jornalistas ficar à mercê das várias pautas sugeridas pelos usuários (do contrário, o participante vai se sentir frustrado e sair ou reclamar ou sabotar a iniciativa, etc) é muito grande (e isso desagrada e desestimula os profissionais da imprensa, acostumados a serem promotores do agendamento).

Para não discordar totalmente da leitura do meu colega jornalista, “serviços jornalísticos” podem ser incluídos em qualquer grupo. Basta ter alguém predisposto a contribuir desta forma.

Digamos que um administrador (ou administradores) queiram criar grupos com assuntos restritos: trânsito da metrópole, tempo, bolsa de valores, banda NOFX, time de futebol, postos de saúde do município ou bairro, etc. Neste caso o grupo pode funcionar. Há até um exemplo neste artigo: O Whatsapp, a “classe média” e o mundo underground do conteúdo. Pode funcionar com outros e, neste caso, pode até haver cobrança, como o personagem da matéria do link acima faz.

Bem, estes são apenas alguns empecilhos observados por mim sobre a criação de grupos ou supergrupos em chats existentes ou que venham a existir para “receber” informação de jornalistas. De outra forma, é claro que os chats ajudam sobremaneira certas funções jornalísticas, a saber:

  1. Possibilitam a colaboração do cidadão (jornalismo colaborativo) a partir da divulgação do número de WhatsApp da Redação de jornais, webjornais, revistas, rádios e TVs.
  2. Agilizam o repasse da pauta e a apuração jornalística.
  3. Permitem, no uso por assessorias de imprensa, um contato com jornalistas das redações, colunistas, articulistas, editores e freelancers.
  4. Auxiliam a troca de informações entre jornalistas e grupos específicos, setorizados ou não (não difere do que ocorre normalmente em todos os grupos de whats).

Como manter um negócio deste

A possibilidade de manter um negócio deste – veículo de imprensa em chat – passa pelas vias costumeiras, assinatura e anúncios, mas não pelo pagamento avulso. Apesar de possível, não há inovação nenhuma nisso. Apenas, novamente, uma transposição de informação para a nova ferramenta, considerada assim, neste uso (assim como o jornal impresso, a TV, o rádio, os sites e blogs), como nova mídia. No entanto:

  1. Os anúncios em forma de banners parecerão, aos olhos dos usuários, como spam, o que os encorajarão a também fazer este tipo de postagem.
  2. A assinatura pode ser vinculada à manutenção do usuário no grupo, como faz o personagem citado no artigo do link acima.

Meu amigo, não muito convencido que o jornalismo em chats é algo duvidoso e temerário enquanto negócio, argumentou: “Haveria uma espécie de identificação dos jornalistas do grupo e estes receberiam pelos anúncios e assinaturas”.

Ora, num grupo em que os poucos administradores obtêm pagamento pela via de anúncios ou assinaturas, como os usuários aceitariam isso se eles todos podem também colaborar com as informações do grupo? “Eu colaborarei com tal informação, quero uns R$ 10 reais pra mim!”, ou ainda: “Paga uma gelada aí :D”.

A invasão de privacidade

Uma questão que ainda deve ser analisada é a invasão de privacidade ao se incluir usuários em grupos ou supergrupos. Quem aqui não acordou dentro de um novo grupo “bem legal” que algum amigo te incluiu? E pra sair agora de forma elegante?!

Se foi um desconhecido que te adicionou, a possibilidade de sair é muito grande, mas não sem antes ter causado algum embaraço pela invasão de privacidade.

Um anúncio será também considerado spam e, portanto, invasão de privacidade.

Considerações

Espero que estes pontos tragam luz ao assunto e mais reflexão, afinal, jornalismo é amplo e como está no dicionário, tem o etc:

Jornalismo

substantivo masculino

  1. atividade profissional que visa coletar, investigar, analisar e transmitir periodicamente ao grande público, ou a segmentos dele, informações da atualidade, utilizando veículos de comunicação (jornal, revista, rádio, televisão, etc.) para difundi-las.
  2. o conjunto dos jornais ou dos jornalistas; imprensa.
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